Filme sobre quilombolas e Alcântara será exibido hoje em SP

SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

“Tecnologia? Eles estão desenvolvendo para eles. Minha casa é de barro e a gente vive da roça.” A frase é de uma moradora da comunidade quilombola de Alcântara, a 50 km de São Luís, no Maranhão, no documentário “Céu sem Limites” (2011). O filme, que será lançado nesta segunda-feira, é um ensaio antropológico sobre o conflito que dura mais de 30 anos entre os quilombolas e o Programa Espacial Brasileiro, feito em parceria com a Ucrânia. O enredo, real, é o seguinte: cerca de 3.000 famílias de remanescentes de quilombos vivem na área que é considerada a melhor do mundo para o lançamento de foguetes. Lá está sendo construído o CLA (Centro de Lançamento de Alcântara). Por causa da proximidade com a linha do Equador, os lançamentos de lá economizam combustível. Parte das famílias quilombolas foi deslocada para áreas vizinhas, apesar de a terra quilombola ser garantida pela Constituição de 1988. Quem fica convive com a rotina militar dos testes no CLA. CRIAÇÃO COLETIVA O documentário percorre hábitos e crenças dos moradores. Os 70 minutos do filme foram construídos com a comunidade e tiveram participação de alunos de comunicação da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). “O importante foi garantir no filme o processo de criação coletiva”, diz a diretora Eliane Caffe. Ela passou três meses gravando na região. Para o antropólogo da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Dagoberto José Fonseca, coordenador do Cladin (Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra), o deslocamento das famílias para outras áreas é prejudicial. “No novo território, a comunidade se quebra”, diz. O principal problema é que os quilombolas vivem da pesca. Mas as terras para onde parte deles foi levada são agricultáveis (e pouco férteis, reclamam os quilombolas). “Isso faz com que muitos acabem migrando para São Luís. Como não estão preparados para a vida urbana, entram para a criminalidade”, comenta o antropólogo. Por conta das dificuldades na região, a AEB (Agência Espacial Brasileira) já cogitou sair do Maranhão. Em nota à Folha, a AEB reconhece que as comunidades deslocadas tiveram “seus hábitos e costumes afetados”. “Os impactos positivos e o progresso esperados pela implantação do CLA não aconteceram, gerando insatisfação na população local.” A agência disse ainda que o orçamento de 2012 prevê R$ 5 milhões em ações voltadas para as comunidades. Além dos quilombolas, o CLA enfrenta outros obstáculos. Recentemente, a torre de lançamento do VLS-1 (foguete lançador de satélites nacional) foi reconstruída, após um acidente que destruiu a plataforma e matou 21 técnicos e engenheiros, em 2003. Nas próximas semanas, os ministros Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Nelson Jobim (Defesa) visitarão o local para bater o martelo no calendário das obras. “CÉU SEM ETERNIDADE” ONDE Cine Livraria Cultura, av. Paulista, 2.073, Cerqueira César, zona oeste QUANDO segunda-feira (25), às 20h

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